PAI FRANCISCO: Santo de dois mundos: Nem só altar, nem só terreiro. Nem só cruz, nem só ponto. Francisco é interseção viva — onde o santo católico encontra o preto velho, e juntos, abrem caminho. Com rosto azul do céu da noite e corpo vestido de vermelho-terra, essa figura central carrega a herança de quem já viu o mundo partir e se recompor muitas vezes.
Seus olhos fixos não pedem — observam. Protegem. Lembram! O arco que lhe envolve é coroa e auréola, mas também é roda e laço — símbolo de fé e de força ancestral. Em sua cabeça, pousa um pássaro vermelho: mensageiro dos mundos, talvez Exu disfarçado de silêncio, talvez Oxalá em estado de travessia ou a voz do Espírito Santo em línguas inaudíveis. Ao redor, flores, asas, setas e sinais se multiplicam: a linguagem do invisível em plena festa visual. Como diria Ailton Krenak, “o mundo não é uma mercadoria, é um ser vivo.” E essa tela o sabe.
Nesta pintura, Francisco é também o nome de quem rezava com fumo e benzia com o olhar. Preto velho de mãos largas e estendidas para o alto, tem um sigilo de proteção em suas palmas e outros dois no peito. Francisco conhece a medicina da terra e da paciência. Não se trata de sincretismo, mas de encruzilhada viva: lugar onde espiritualidade e resistência se encontram sem pedir licença. A paleta vibrante — rosa, verde, azul, amarelo — nos fala de festa, mas também de cura. Uso arte pra criar retomada simbólica e silenciosa, iconografia decolonial, reverência a quem veio antes. Porque Pai Francisco é aquele que escuta antes de responder. Aquele que planta palavras no silêncio e canta para espantar o medo. Um bom conselho sempre chega aos ouvidos atentos, ele canta na voz dos pássaros.
“Eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer.” Conceição Evaristo
Estampa de Auíri Tiago